Estuários

Download PDF

por José Pedro N. Ribeiro – jpnr[at]bioaustral.eco.br

JPNR_20080112-73Estuário (do latin aestus – maré, arium – lugar) é o ambiente de mistura da água doce de um rio à água salgada vinda de um oceano. Rios encontram oceanos em todo o mundo, e assim existem estuários em uma infinidade de formas, tamanho e características. A grosso modo, podemos dividir os estuários em dois grandes grupos. Estuários regulares, onde rio e oceano estão sempre conectados e a mistura das águas acontece ininterruptamente, e estuários irregulares, onde a conexão com o oceano adjacente selada por uma barra de areia construída pelo próprio oceano. Nesses casos, a mistura das água só acontece quando a barra se rompe, e assim, a influência da maré e limitada. Em geral a abertura da barra está ligada á estação chuvosa, mas existem estuários onde a barra abre mais de uma vez por ano, ou uma vez em vários anos. Existem outras maneiras que classificar os estuários. Você pode dar uma olhada no que a wikipedia tem a dizer a respeito.

Esse ambiente de mistura gera dois gradientes ambientais, que são os principais fatores abióticos para a distribuição vegetal nos estuários. Um gradiente é horizontal, relacionado aos ciclos de alagamento da maré. Pontos mais baixos _DSC0325.jpgficam mais são alagados mais frequentemente e por mais tempo. O outro gradiente é um gradiente horizontal relacionado à salinidade. Mais perto do oceano é mais salgado, e conforme subimos o estuário em direção a nascente a salinidade cai.

O alagamento leva à uma serie de alterações físicas, químicas e biológicas que alteram a capacidade do solo suportar o crescimento dos vegetais. O sal, dependendo da concentração, pode criar uma série de disfunções fisiológicas que limitam ou impedem o crescimento vegetativo e reprodutivo da maioria das espécies vegetais. Assim, a distribuição vegetal em estuários é principalmente dependente da maneira, da intensidade, da duração e da frequência dos ciclos de mistura da água do rio à água do oceano.

A maioria dos estudos, relacionada à distribuição vegetal nos estuários foi feita no Hemisfério Norte. Esses estudos apontam para uma demanda conflitante entre tolerância aos estresses ambientais e habilidades competitivas, onde as manguezalespécies mais competitivas ocupariam os trechos menos estressantes e deslocariam as menos competitivas para os trechos mais estressantes. Em estuários regulares, a previsibilidade dos ciclos da maré leva a um padrão de distribuição nas plantas caracterizado por faixas estreitas de ocorrência das espécies dominantes e baixa sobreposição de nichos. Em estuários irregulares, a frequência e duração da influência da maré são imprevisíveis, o que impede que o balanço competitivo seja atingido, e leva as espécies a apresentarem faixas mais largas de ocorrência, e assim, uma maior sobreposição de nichos. Além disso, nos trópicos, principalmente nos estuários irregulares, onde a influência da maré é limitada, a importância relativa da chuva é muito maior. Dessa maneira, não se sabe até que ponto as informações obtidas nos estuários regulares do hemisfério norte podem ser extrapoladas para os estuários tropicais irregulares, e a distribuição vegetal em gradientes ambientais é uma das maiores lacunas no nosso conhecimento sobre ambientes estuarinos.

A planície costeira é historicamente a parte mais populosa da Terra. Os estuários e a plataforma continental Cananeiacorrespondem a pouco mais de 5% da superfície da Terra, mas abrigam cerca de 60% da população e são responsáveis por 90% do que é pescado no mundo. Hoje esses ambiente sofrem os mais diversos tipos de impactos, que vão desde contaminação por metais pesados até sobre-pesca. Além disso, frequentemente, a avaliação dos impactos causados pelo manejo hidrológico dos rios sobre os estuários é negligenciada. Assim, todo o impacto sobre os ambientes estuarinos e consequentemente sobre a pesca e a população costeira é tido como conseqüência inevitável do desenvolvimento das áreas a montante.